Tendo-me eu armado em “Toni”, e estado a ler o jornal apanhando um solinho na moleirinha a horas desaconselhadas, não foi com grande espanto que na passada Segunda-feira depois de almoço comecei a sentir um cansaço estranho, uma moleza arreliante, e a cabeça meia esquisita. Mais para o final da tarde, a coisa piorava a olhos vistos, juntando-se um ardor na garganta, e já desesperava para voltar a casa onde poderia medir a temperatura e aferir da febre que era uma certeza. Chegado a casa às 19.00, os 38.5ºC manifestavam-se em todo o seu esplendor, o que me fez procurar na gaveta da droga, de onde saquei 2 Panadol 500 que prontamente tratei de engolir.
Como previa que a coisa não ia ter melhoras, consultei o horário do Centro de Saúde de Aveiro, e vi que ainda teria uns 40 minutos antes que fechasse. Saí então de casa, e chegado ao Centro de Saúde, 5 minutos depois, tive a primeira surpresa: “O senhor doutor hoje já mandou cancelar as inscrições, pois até às oito já não tem tempo de atender toda a gente.” Então o que faço, minha senhora? “Vá ao Hospital.” Assim fiz. Mais uma viagem de 5 minutos, e eis que chego ao Hospital.
Duas pessoas à minha frente para fazer o “check-in”, das quais se destacava um bombeiro que tinha trazido uma senhora de idade, e que aparentemente não tinha identificação, nem se sabia identificar convenientemente para a burocracia que são quase todos os serviços básicos em Portugal. “Eu não posso aceitar esta senhora” para aqui, “Mas ela disse que cá esteve ontem” para ali, e a coisa ficou em águas de bacalhau. Sigo eu, “Doença ou acidente?”, claro está, doença, “passa para cá 8.20€, e senta-te ali á espera.”
Uns 10 minutos bastaram para me chamarem à atribuição das pulseiras (para quem não sabe, a “triagem”). Temperatura medida novamente, sintomas descritos, e toma lá uma pulseira amarela. “Fixe”, pensei eu, “a coisa até promete ser rápida”. Assim que entro na segunda sala de espera, comecei a reparar que metade das pessoas também tinha comprado bilhete geral para o mesmo festival que eu… o das pulseiras amarelas. Eram para aí umas 20 pessoas, e curiosamente aproximavam-se as 20 horas. Finalmente os comprimidos estavam a fazer efeito, e começava a sentir-me melhor. De repente, vejo que começava a registar-se um movimento de saída de pessoas de bata debaixo do braço. Era hora da mudança de turno. Agora é que a coisa ficou bonita… Eram já 20.15 quando começaram a entrar os substitutos para o novo turno, e até às 20.30 o movimento de entradas foi-se mantendo mais ou menos constante. Registe-se que claro que durante este tempo, cerca de 45 minutos, não houve consultas para ninguém, estando todos nós ali à seca, num sítio claustrofóbico, que apesar de ter uma boa área, tem tectos demasiados baixos. Obviamente que num ambiente daqueles, qualquer alminha se sente ainda mais doente. O curioso é: para as habitações existem cotas mínimas de altura, para um hospital, estas cotas não existirão? A sala não tinha mais de uns 2.10 de altura, para que possam imaginar o nível de claustrofobia.
Depois de chamarem quase toda a gente que estaria à minha frente, incluindo alguns “pulseiras verdes”, lá ouvi uma voz com um sotaque estranho a chamar o meu nome. Parti à descoberta da senhora que me esperava, e dei de caras com uma médica que me pareceu simpática e de trato fácil. De início não soube discernir de onde seria o sotaque, mas só soube que português não era, mas sim de leste. “Ora abra lá a boca”… “Você costuma ter as amígdalas sempre neste estado?” Ora, que raio de pergunta! Se não estivessem num estado miserável não tinha lá ido, não é? Respondi que nos últimos 5 anos estive naquele estado umas 3 vezes, a última das quais há pouco mais de um ano… “Então e injecções, tem alguma coisa contra?” Bem… se forem substituíveis por comprimidos tanto melhor, senão, venham de lá elas! Saí de lá com um receituário maior do que o de um idoso, com prescrições para tomar os medicamentos intercalados, 3 vezes ao dia, e outro apenas 2, para além de duas injecções de penincilina, uma a tomar quanto antes, e a outra no final da caixa dos comprimidos do antibiótico. Um aperto de mão, as melhoras, e muito obrigado, e vamos lá aviar a receita na farmácia.
Mais uma passagem por casa para confirmar a localização da farmácia de serviço, mais uma viagem, e um saco de medicamentos na mão. Toca de ir ao Jumbo comprar alguns víveres, tomar o remédiozito, e casa.
Depois de uma noite tranquila e bem dormida, apenas interrompida para tomar o raio do comprimido às 4 da manhã, toca de ir ao Centro de Saúde para levar a pica. Só o frasco metia respeito! Será que me vão injectar esta bodega toda? Eram umas 8.20 da manhã, e estavam já algumas pessoas na sala de espera… Passados uns 5 minutos, para meu não espanto, entram uma data de pessoas que não eram doentes. Claro está, eram os médicos e enfermeiros… mais uma vez com uma pontualidade portuguesíssima.
Felizmente não me fizeram esperar muito mais tempo, e às 8.50 já tinha as calças novamente vestidas, e mais uns ml de penincilina injectados intramuscularmente. Restava esperar pelos efeitos secundários, ou manifestação de alergia, que não apareceu, e passada meia horita, lá estava eu, fresco como uma alface, pronto a ir trabalhar.
Conclusão desta história:
Agora percebo porque é que os médicos são contra o controlo do “ponto” por biometria…
Para quê tanta burocracia, com métodos de pulseiras coloridas, se as pessoas vão garantidamente estar uma eternidade à espera para abrirem a boca e lhes receitarem uma catrefada de droga?
Para quê um “serviço de atendimento permanente”, se a partir da hora em que as pessoas que trabalham podem deslocar-se ao tal serviço de atendimento permanente porque precisam de uma simples consulta para resolver uma faringite, gripe, constipação ou afins esse mesmo serviço deixa de ser permanente?
Tudo isto numa cidade capital de distrito…